Viola Caipira - Patrimônio Cultural

A viola caipira foi um dos primeiros instrumentos usados na música sertaneja, ela ditava e dava o ritmo as emboladas, rasqueados, etc, que alegravam as noites do interior. A nossa viola caipira tem como base a "viola portuguesa", por isso, desde os remotos tempos da colonização lusa em nosso país, a viola figura como o primeiro instrumento de acompanhamento a chegar nessas terras.

Daí sua expansão por quase todo o Brasil, sendo porém, mais difundida em Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná...

Quando se fala em viola, vem logo a mente os violeiros parrudos, bigodudos e cara séria, tal qual "Tião Carreiro", "Ronaldo Viola e duplas como "Tonico e Tinoco, "Vieira e Vieirinha", "Abel e Caim", "Moreno e Moreninho", "Maiyk e Lyan" além de violeiros mais formais, ao estilo sala de conserto, tal qual "Almir Satter", "Bambico", "Renato Andrade", "Marcos Biancardini", "Pereira da Viola", "Chico Lobo", artistas mais recentes como "Daniel Viola" e "Bruna Viola", entre outros...

Inventário das violas mineiras em processo

Além da iniciativa proposta por João Araújo, que busca o reconhecimento da viola caipira como patrimônio imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), outra ação tem sido realizada, paralelamente, a nível estadual. Está à frente disso, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), que, neste ano, está começando a elaborar um inventário dos modos de fazer e das formas de tocar a viola em território mineiro.

Françoise Jean de Oliveira Souza, diretora de proteção e memória do Iepha-MG, afirma que este projeto visa proteger os ofícios e a arte de interpretar a viola, tornando os dois patrimônios imateriais de Minas Gerais. “Em 2015, a secretaria Estadual de Cultura recebeu a Associação Nacional de Violeiros do Brasil que sugeriu a realização desse estudo. Nós o incorporamos em nosso planejamento e após finalizarmos o trabalho com as folias de Minas, que adquiriram esse mesmo reconhecimento agora, nós estamos nos dedicando à viola”, acrescenta Souza.


De acordo com ela, a ideia é, até o próximo mês, tornar pública uma plataforma no site do Iepha-MG que vai permitir o cadastro de luthiers especializados na confecção do instrumento e dos diversos mestres da viola.

“Para que esse projeto tenha sucesso é preciso contar com ajuda dos municípios. Nós estamos falando de um Estado enorme, que tem uma diversidade cultural imensa. Então, nossa intenção é mapear as formas de tocar a viola e as diversas maneiras de produzi-la também”, afirma a gestora, que ressalta o lugar fundamental da viola entre as manifestações da cultura popular.


“A gente percebe que ela perpassa diversas festas populares, como as folias de reis, o congado e a marujada. Ela é o grande elo que liga essas várias manifestações culturais, tendo um papel estruturante em nossa cultura e em nossas diversas formas de nos expressar. Por isso, ao salvaguardar a viola, e nossas formas de fazê-la e tocá-la por extensão, nós também estamos salvaguardando todas essas outras ramificações culturais que estão associadas a ela”, conclui Souza. 

Próximo passo é fazer da viola patrimônio mundial

Antes de comunicar ao Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan) o interesse de transformar a viola caipira em bem imaterial, João Araújo pesquisou durante três anos. “Agora que o pedido foi feito serão realizados estudos e consultas com antropólogos e historiadores que vão analisar minha requisição”, afirma.

Araújo lidera uma campanha nacional ao contactar violeiros de várias regiões. Ele também antecipa que seus objetos não se limitarão às fronteiras nacionais e que está acionando também músicos do exterior. “Além de contar com o apoio de vários violeiros do Brasil, estou convidando outros de Portugal para se juntar à gente e, assim, conseguirmos levar essa proposta depois à Unesco, tornando esse instrumento, em seguida, patrimônio da humanidade”.

Renato Andrade. Também violeiro e pesquisador, Paulo Freire ressalta a influência da obra do compositor mineiro Renato Andrade na evolução técnica do instrumento e na entrada dele, até então conhecido por acompanhar duplas caipiras, nas salas de concerto do Brasil e do exterior. “Na década de 1970, Renato gravou um disco instrumental que deixou César Guerra-Peixe (compositor de música erudita) impressionado e interessado em saber de onde vinha o instrumento com aquela sonoridade”. Ele lembra que Andrade questionava o preconceito dos músicos com a viola. “Ele dizia: ‘viola é que nem mortadela. Todo mundo come, mas tem vergonha de comer na frente dos outros’. Ou seja, todo mundo gostava de viola, mas na hora de falar dela em público, os músicos ficavam com o pé atrás”.

Manter a tradição da viola caipira é um importante mecanismo de resgate e preservação de nossa história, principalmente da nossa música sertaneja...